Roube este álbum

“Escondam seus iPods, pois vem aí aquela banda que não quer que vocês baixem música da internet”. A frase é atribuída a Bruce Dickinson, vocalista da banda de heavy metal Iron Maiden, se referindo ao Metallica, que tocaria em seguida em um festival. Reza a lenda que esse comentário foi o início de uma rixa entre eles que faz com que, hoje em dia, seja impossível ter as duas bandas no mesmo festival. A questão que deu origem ao comentário de Dickinson é que o Metallica foi a primeira banda que teve cojones para processar o Napster, serviço pioneiro em compartilhamento de arquivos pela internet, em 2000. Não é como se eles fossem os únicos a querer fazer isso (mesmo por que a ação envolvia outros artistas também) mas a atitude da banda liderada pelo gostoso por James Hetfield foi o pontapé inicial de uma partida cujo segundo tempo começa agora.

Quem são os donos da bola?

O lance mais recente deste jogo dramático e que promete atiçar os ânimos das torcidas de ambos os times é o projeto de lei anti pirataria que está em discussão e será votado este ano no senado norte-americano. A Stop Online Piracy Act (ou SOPA, como ficou conhecida) propõe novas regras para combater a pirataria online, mas suas medidas restritivas e autoritárias – como conferir plenos poderes para que o governo norte-americano tire do ar qualquer site contendo conteúdo protegido por direitos autorais, mesmo sem ordem judicial – têm sido o principal alvo de críticas. Mesmo assim, entre as empresas que apoiam a lei estão (claro) gravadoras, emissoras de TV, grupos de mídia, editoras, operadoras de cartão de crédito,  além de associações que representam diversos setores, como artistas, compositores, atores e estúdios de cinema.

Felizmente, nem todas as grandes corporações apoiam a lei e algumas gigantes da internet prometem desligar seus servidores em protesto, entre elas Google, Facebook e Amazon. Empresas e empreendedores – como Sergey Brin (Google), Arianna Huffington (Huffington Post), Jack Dorsey (Twitter), entre outros – fundaram a NetCoalition, grupo cujo objetivo é combater a proposta de lei. Em novembro de 2011, a organização divulgou um documento que aponta os riscos à liberdade dos usuários na internet, caso a lei seja aprovada.

A resistência não para por aí. Recentemente diversos artistas, entre eles Will I Am, Kanye West, Snoop Dogg e Alicia Keys, gravaram um video em “defesa” do Megaupload, um dos maiores serviços de compartilhamento de arquivos atualmente. O serviço havia sido apontado pela Recording Industry Association of America (RIAA) e pela Motion Picture Association of America (MPAA) como um apoiador e incentivador da pirataria. A iniciativa dos artistas irritou a gravadora Universal, que tentou tirar o vídeo do ar, sem sucesso (veja o vídeo abaixo).

Mas a atitude serviu para mostrar que os artistas estão começando a pensar diferente e já entenderam que é preciso lidar com a questão do download de outra maneira. Na verdade, apesar da facilidade em se conseguir música nos dias de hoje, os números tem se mantido relativamente positivos e melhorado em diversos aspectos. De acordo com dados publicados pelo Nielsen SoundScan (empresa responsável pelo levantamento de vendas de música nos Estados Unidos e Canadá), as vendas de música em formato digital subiram 8,4% desde 2010 e em 2011 o setor superou o suporte físico pela primeira vez na história, representando 50,3% do mercado mundial.

Os prognósticos são positivos, apesar de tudo. Pena que a indústria sempre dá um jeitinho de dar um tiro no pé, como no caso do box lançado por Elvis Costello no final do ano passado. “The Spectacular Spinning Songbook” traz o registro em CD, DVD e vinil da turnê de mesmo nome do músico britânico e sua banda The Imposters, além de tour book, lembracinhas y otras cositas más. Nas palavras do próprio, em comunidado divulgado em seu site oficial com o título “Steal this record” (roube este álbum), “este compêndio belamente projetado (…) registra os Imposters em sua melhor forma”. Mesmo assim, Costello prossegue dizendo que não se sente confortável em recomendar o produto a seus fãs pois o preço do box (inacreditáveis 250 dólares na Amazon) “parece ser um erro de impressão ou uma piada” e “infelizmente nossas tentativas de ter este valor revisto foram infrutíferas”. E não para por aí: Elvis termina o comunicado dizendo que, para aqueles que quiserem muito adquirir o kit, os itens estariam disponíveis no início deste ano separadamente por um preço mais em conta. “Isso se você já não tiver adquirido por meios não convencionais”, diz. A declaração causou rebuliço entre os fãs e na mídia especializada e aqueceu a discussão sobre indústria fonográfica e download.

Elvis Costello: his aim is true

Não é à toa que Elvis Costello também é bastante associado à cena punk do final dos anos 70, quando iniciou sua carreira. – Inclusive, em um de seus maiores sucessos, “Radio Radio”, ele afirma que a mídia de massa “está na mão de um bando de idiotas”. Mas não vá pensando que Elvis está dando uma de anarquista e muito menos que ele é a favor do download. Muito pelo contrário. Em um adendo posterior ao texto supracitado, Costello se refere a pessoas que fazem download ilegal como “piratas que se acham evangelizadores ou que os direitos dos outros absolve sua ladroagem”.

Acredito que não há nada de errado em um artista ser contra o download ilegal, da mesma forma que como não há nada de errado em ser a favor. É compreensível que músicos se sintam atingidos (financeira e moralmente) ao ver sua obra sendo distribuída a torto e a direito sem que obtenham a devida compensação por isso. O problema está no modo como a indústria de discos tem levado a situação: primeiro demorou a agir; depois tentou solucionar o problema através da repressão o que, obviamente, não deu certo; quando resolveu acordar e foram criados serviços como a iTunes Store e o Spotify, já era meio tarde. Uma vez que uma geração inteira cresceu tendo acesso à música de graça (e eu me incluo nessa) sem ser confrontados com os aspectos morais e éticos disso, fica difícil acabar com a prática de uma hora para a outra. E é por isso que projetos de lei como o que está em discussão no congresso norte-americano e ideias estapafúrdias como a Lei Azeredo (quem lembra?) só tendem a dar murro em ponta de faca.

Comofas/: Possíveis caminhos para  indústria fonográfica.

Gente de visão como Kanye West e cia e o próprio Elvis Costello sabem que não é assim que a banda toca (e se alguém entende de como a banda toca, são eles, certo?). Eles sabem que, mesmo que o mercado fonográfico esteja em crise e mesmo que os artistas precisem ser pagos por seu trabalho, a indústria está fazendo isso errado.

Ok, mas qual é o jeito certo? Bom, vejamos, quantas formas diferentes de se lucrar com música existem hoje? Quantas são exploradas em todo seu potencial? Lembra quando surgiu o Guitar Hero? Era uma guerra para conseguir a liberação de uma música para o game e hoje bandas se esbofeteiam para estar nele. E esta é só uma das formas recentes de se ouvir música e trabalhá-la comercialmente.

O que tem ocorrido também é a ascensão da indústria do espetáculo, principalmente no Brasil. Hoje em dia, uma verdadeira gincana se inicia sempre que os ingressos para um show começam a ser vendidos, seja Paul McCartney, seja Ivete Sangalo. Ingressos esgotados em questão de minutos mesmo custando 2 ou 3 vezes mais caro do que em países desenvolvidos, alguns no valor de um salário mínimo ou mais (caso da turnê 360º do U2, por exemplo). Como explicar isso em um país em que cada vez se paga menos pela música em suporte físico? Sinal de que as pessoas ainda se importam o suficiente com a música para querer pagar (caro) por ela: A forma com que elas querem consumi-la é que mudou.

Dentre as diversas soluções possíveis (e seria impossível abordar todas em um único post) a que mais tenho defendido é uma espécie de brand loyalty na música, ou seja, investir naquelas pessoas leais ao artista ou banda a ponto de adquirir tudo relacionado a ele (não importa o valor, não importa se é um vinil raro ou um CDzinho fajuto), que divulgam seu artista preferido, o defendem e fazem de tudo para apoiá-lo. Estou falando dos fãs. Em um momento em que a maioria das pessoas não paga pela música que ouve não parece óbvio investir em quem paga o preço que for para ter um produto na estante?

Agora, também não estou falando somente dos fãs de determinado artista ou banda e sim dos fãs de música, os colecionadores, aqueles que utilizam a música como capital cultural, como botton de identidade em sua estante, aqueles que não dispensam um bom produto principalmente se tiver as palavras “raro” ou “edição de colecionador” escritas em letras garrafais e amigáveis (Assim, tipo eu…). Geralmente este cara é que vai dizer aos amigos o que adquirir, quais discos merecem ser ouvidos (o que em marketing chama-se trendsetter) e, o mais importante, eles frequentemente tem uma paixão pelo suporte e dificilmente vão se contentar com um mp3 de 128kps. Este tipo de consumidor é fiel (se agradado) e pode ser a salvação da indústria de discos. Mas não se engane, eles também são exigentes (demais até!) e para conquistá-los é preciso ter um produto de qualidade.

Pague pelo que importa.

Recentemente comecei a perceber a presença em lojas de discos (sim, eu frequento lojas de discos!) de um produtinho que estão chamando de Digipack. O produto consiste em (sem brincadeira) um pedaço de papelão com um CD dentro e uma etiqueta na frente dizendo “Pague pelo que importa: a música”. Juro que tive um ataque quando vi isso a primeira vez. Quer dizer que antes eu estava pagando pelo quê? Isso, comparado com a ganancia da Hip-O (e de outras gravadoras também) ao superfaturar o box edição limitada do Elvis Costello, por exemplo, só prova que os executivos desta indústria, de fato, acham que somos idiotas. Será que é difícil perceber que se você tiver um produto de qualidade as pessoas vão querer comprá-lo? E será que para baixar o preço do CD você precisa mesmo diminuir os custos de produção? Que tal diminuir um pouco o seu lucro em vez disso e lucrar em outros setores? E que tal tornar seu produto atraente (em vez de piorá-lo)?

Algo que vai diretamente de encontro a esta ideia estúpida de que hoje a música vale menos é o fato de que, apesar de todas as opções gratuitas ou mais baratas, pasmem, muita gente voltou a comprar discos, inclusive em vinil, um formato que, segundo dizem, está “voltando”. No Reino Unido, as vendas de discos de vinil tiveram alta pelo quarto ano consecutivo e em 2011 subiram 55% em relação ao ano anterior. Nos Estados Unidos os números são parecidos. Já no Brasil, a Polysom, única fábrica de vinis da América Latina, foi reaberta, e desde o ano passado já prensa alguns filhotes. Como explicar fenômenos como a possível volta do vinil em um momento em que se pode ter acesso a virtualmente qualquer coisa com um clique?

“Se é o som mais ‘aconchegante’, a arte da capa em tamanho grande ou seu apelo retrô, o fato é que o vinil parece estar capturando a imaginação dos consumidores, apesar de normalmente custar o dobro do CD contendo a mesma música”, afirma Kim Bayley, diretor da Entertainment Retailers Association (associação responsável pelas vendas de produtos de entretenimento no Reino Unido), em entrevista à Billboard. Bayley aponta, ainda, que “muito do foco da indústria da música tem sido a redução dos preços, em parte em resposta ao aumento da pirataria. O sucesso do vinil mostra que os fãs de música estão dispostos a pagar por algo que realmente amem.”

O fato é que dificilmente  as pessoas vão simplesmente se conscientizar de que não devem baixar e muito menos parar com o download só por causa disso. É preciso oferecer algo a mais. O consumidor de música está, claramente, em busca de algo que a indústria ainda não tem. O download e o baque que a indústria fonográfica sofreu nos últimos anos são apenas um reflexo disso. Claro que alguns acreditam que todo mundo que faz download ilegal deve ser preso e acreditam que, com a nova lei anti pirataria, isso pode ser possível. Bom, pode até ser, mas se isso acontecer mesmo, meu amigo, não fica um consumidor de música pra contar a história, mais ou menos como naquela música do Bezerra da Silva. Tudo o que posso dizer pra essas pessoas é boa sorte com isso.

Com informações de: EstadãoFolha, Rolling Stone e Billboard.

Ai, se eu te pego… ouvindo Michel Teló!

Confesso que quando vi a capa da revista Época desta semana fiquei horrorizada, chocada, pasé composé (Ver imagem ao lado. Clique para ampliar). Porém, passado o susto inicial resolvi fazer algo que poucas pessoas de fato devem ter feito: li a matéria. Nunca ouvi a música “Ai se eu te pego”, por incrível que pareça*. Refletindo um pouco sobre isso cheguei à conclusão de que eu passo muito tempo, mas muito tempo mesmo, com os fones do iPod no ouvido o que, por um lado, me “salvou” de ouvir este soneto em forma de canção que aparentemente está tocando em tudo que é lugar mas, por outro, me fez perceber que eu talvez esteja me fechando muito no meu mundinho musical, o que não é nada bom. Porém, eu não escapei totalmente à “pegada” de Michel Teló. “Nossa, assim você me mata” é provavelmente o meme mais repetido nas internets de todos os tempos na última semana. Além, é claro, de nos últimos dias eu estar sendo exposta via Facebook a todo tipo de baboseira intelectualóide escrita a respeito do aparentemente estrondoso sucesso internacional do rapaz.

Se você está lendo este texto esperando uma dessas opiniões elitistas sobre se Michel Teló representa ou não a cultura popular brasileira, esqueça. Mesmo porque (1) apesar de não ter ouvido a canção em questão (mas já conheço a letra de cor, claro) já ouvi uma outra dele, aquela da “fugidinha”, e devo dizer que não é a pior coisa do mundo (tem um refrão tão pegajoso quanto qualquer música dos Beatles) e (2) a maioria dos textos que li sobre a tal música conseguem ser piores do que a mesma. Também não vou ficar aqui dando uma de defensora da cultura popular (sempre mais autêntica, pura e verdadeira na visão dos puristas, melancólicos e intelectuais de esquerda) muito menos comparar letras de música (Até por que ainda acho que “She loves you yeah yeah yeah” tem mais poesia do que “Ai que delícia se eu te pego”, não importa a tradução). O que realmente me chama atenção nesta discussão toda e o que acho que está por trás dos debates acalorados sobre cultura(s), representação e liberdade de expressão que tem surgido em torno disso, é a questão do gosto como fator de distinção e como ele tem se manifestado em nossa sociedade mais através do ódio do que qualquer outra coisa.

Desde o finado Orkut e suas comunidades “Eu amo isso” “Eu odeio aquilo” até mais recentemente com a ascensão dos haters e dos trolls em toda a internet, tem sido possível notar que, atualmente, em nossa cultura mais importante do que amar alguma coisa é odiar (À propósito, o que aconteceu com o “gostar”, “curtir”, etc? Tudo tem que ser assim tão 8 ou 80? Enfim). Isso por que nossos gostos em comum nos aproximam mas é o que não gostamos que, de fato, define a fronteira entre nós e eles, o que nos distingue e nos distancia dos Outros. Poucas coisas em nossa cultura funcionam como marcadores sociais tão fortes. O problema é que a sociedade parece ter evoluído minimamente (hoje temos bem mais mobilidade social, liberdades individuais e acesso ao conhecimento e bens culturais – embora ainda esteja longe do ideal, claro) mas a mentalidade das pessoas nem tanto. A maioria continua aplicando conceitos do Iluminismo em plena pós-modernidade.

O sociólogo alemão Theodor Adorno é um dos grandes responsáveis pela difusão do termo que hoje usamos com tanta displicência: cultura de massa. Ele acreditava que a mídia de massa era responsável por alienar as pessoas. Hoje o cara é taxado de elitista (“adorniano” virou xingamento) e quem faz isso esquece que Adorno escreveu em um contexto de Alemanha Nazista em que a propaganda através da mídia de massa era, de fato, muito forte. Mas quando Adorno e Horkheimer escreveram o célebre (e também hiper mal interpretado) ensaio A Indústria Cultural – o Iluminismo como Mistificação das Massas, em 1947, fazia algum sentido a oposição entre cultura de massa e cultura erudita: Um “hater” de música popular era, necessariamente, um apreciador de música clássica. Hoje em dia, não mais. Não existem mais antagonismos de fato, tribos ou subculturas rivais, o que existe são gostos legitimados e não-legitimados e um hater em cada esquina.

Em linhas gerais, o cara que reclama que a música de Michel Teló é pobre não necessariamente ouve Baden Powell ou Villa-Lobos e eu arrisco dizer que dificilmente essa pessoa já ouviu falar nestes nomes. Se for um fã de Coldplay e congêneres, piorou, pois tudo faz parte do mesmo contexto, o da música popular massiva. É a grana dos downloads de “Ai se eu te pego” (atualmente a música é campeã de vendas na iTunes Store brasileira) que vai financiar o álbum experimental com influências vanguardistas da próxima sensação do indie-pop-tecnológico (seja lá o que isso signifique).

O que está verdadeiramente por trás da discussão sobre Michel Teló é a questão do gosto como fator de distinção e do “eu odeio” como ferramenta atual deste processo. Pierre Bourdieu, antropólogo francês conhecido por seu amplo trabalho acerca da Sociologia dos Gostos, afirma da forma mais precisa possível que “o gosto classifica e classifica o classificador”. Ao taxar alguém de inculto (ou ignorante mesmo) por possuir um gosto musical supostamente “inferior”, estamos automaticamente nos colocando em um patamar superior. O gosto dos outros é sempre pior e é justamente uma das coisas que o torna o Outro.

Isso explica o fato de a capa da Época ter gerado polêmica e discussão. Não foi por que a revista utiliza conceitos e termos complexos como “cultura popular” sem trabalhá-los e nem por se tratar de uma matéria de capa (convenhamos que a Época não é nenhuma Piauí. Não é um veículo da elite). A imensa maioria das pessoas se apressou em protestar contra o fato de a revista ter colocado Michel Teló como um ícone da música brasileira sem sequer ter lido a matéria mais por uma necessidade de manifestar o ódio contra o Outro estampado na capa da revista.

Sobre se Michel Teló pode ser considerado um arauto da cultura popular brasileira (seja lá o que isso signifique): Nos anos 50 um jovem branco começou a tocar a música dos negros, rebolar como negro e levou uma música que antes era marginalizada para a juventude de todas as classes e etnias. Ele era considerado vulgar, uma ameaça à moral e aos bons costumes e sua música pobre e indecente, o que não o impediu de ter um estrondoso sucesso comercial. Hoje ele é considerado um ícone de seu tempo. Seu nome era Elvis Presley. Mesmo duvidando que o rapaz chegue tão longe, é preciso apontar para o fato de que o “fenômeno Michel Teló” carrega uma série de valores que estão em ascenção e eu não me espantaria se essa se tornasse a cultura dominante daqui a algum tempo e sua música fosse elevada a um status bem superior do que tem hoje (eu poderia fazer um longo histórico do jazz, do blues, do soul, e até do próprio rock mas fica pra um outro post).

No mais, música não existe num vácuo social. Poucas artes conseguem sintetizar os valores e o contexto histórico-político-social de um povo como a música (aliás, eu arriscaria dizer nenhuma!). Michel Teló existe por um motivo e ele faz sucesso por um motivo, quer você goste ou não (Agora, se ele vai te pegar é outra história, claro). Se ele e o sertanejo universitário existem e tem mesmo a força (comercial e cultural) que têm demonstrado é sinal de que são relevantes para uma boa parte da sociedade brasileira e que traduzem sim os valores desta parcela. E a julgar pela quantidade de referências que eu ouvi nos últimos tempos à esta música vindas de pessoas que não pertencem ao seguimento cultural que comparece aos shows do cara, tenho o palpite de que ela, de fato, comunica e vai além das fronteiras do seu gênero musical.

Portanto, eu não discordaria totalmente da afirmação de Época de que “‘Ai se eu te pego’ (…) traduz os valores da cultura popular para os brasileiros de todas as classes”. O problema é que é preciso ler a matéria para saber exatamente o que o repórter quer dizer com isso.

Fato é que, por enquanto, certos gêneros continuarão a ser odiados por uma intelligentsia que acha que a música tem que ter uma função intelectual, fazer pensar, e não pode servir unica e exclusivamente para diversão. Você é livre pra escolher mas é pressionado pela sociedade a fazer as escolhas “certas” e ai de você se te pegam ouvindo o que não deve, descendo até o chão ao som do batidão ou dando “uma fugidinha” com alguém. Ai se eu te pego ouvindo Exaltassamba, Banda Calypso, Luan Santana, Restart ou, pior ainda, Michel Teló! A polícia da inteligência e os guardiões do bom gosto estão de olho.

* PS. Assim que terminei este texto me senti na obrigação moral de ouvir a bendita música em questão. Minha opinião não mudou mas, apesar de ter ouvido uma única vez, o refrão pegajoso (e não é que ele pega mesmo?) não sai mais do meu cérebro. Nossa, Michel, assim você me mata.

Backstreet Boys – Backstreet Boys

Pensei muito antes de decidir qual seria o primeiro álbum que eu analisaria aqui. Primeiro pensei em algum do Elvis Costello (This Year’s Model – meu preferido – talvez) já que o homem foi responsável por dar vida nova ao meu gosto musical. Depois pensei que justo mesmo seria começar pelo Michael Jackson, meu primeiro ídolo ainda com uns 5, 6 anos de idade. Ou talvez fosse mais fácil começar com algo que esteja sendo lançado agora ou o meu mais novo preferido (Seu Jorge and Almaz, seria). Mas hoje, fazendo uma revisão geral no meu acervo de LPs, CDs e toneladas de mp3 encontrei algo que trouxe um tsunami de lembranças e pôs um sorriso no meu rosto.

O ano era 1997, eu tinha 11 para 12 anos e As Long As You Love Me não parava de tocar no rádio. Até então, meu gosto musical (se é que poderia ser chamado assim) era ainda muito disperso. Lembro de gravar uma fita cassete com músicas do rádio (eu adorava fazer isso) que tinha desde Sandra de Sá até Legião Urbana, passando por Mamonas Assassinas. Não era ecletismo, era falta de personalidade mesmo (11 anos e tals). Na minha casa se ouvia de tudo, desde o samba de Jorge Aragão à MPB de Chico Buarque mas nada daquilo era de fato meu: eram heranças musicais, coisas que habitavam minha casa antes de mim. Mesmo Michael Jackson, que eu já era fã, era algo compartilhado por toda a família. Mas aquela música, aquela letra em inglês que eu não entendia totalmente mas sabia que falava de algo que seria uma constante na minha vida – amor romântico idealizado – e, sobretudo, aqueles caras gatos que diziam com olhares e passos de dança “eu sou seu namorado perfeito”, aquilo era pra mim.

Era a música da minha geração, não só em termos sonoros mas de espetáculo – as roupas, os gestos, as expressões, os símbolos. De repente a garota mais antisocial da escola tinha sobre o que conversar com praticamente todo mundo. Pela primeira vez eu fazia parte de algo e era algo enorme – Boy Bands em geral e as desta época em particular são conhecidas por arrastar verdadeiras multidões por onde passavam. Alguns anos mais tarde, em 2000, os BSB fizeram uma passagem relâmpago pelo Rio de Janeiro, reuniram 40 mil pessoas na praia de Copacabana em plena segunda-feira, deram um nó no trânsito e foram notícia em todos os jornais no dia seguinte. O assunto principal era a “histeria coletiva” de suas fãs. Sobre este acontecimento, assista ao documentário “Backstreet Fãs”, disponibilizado no Youtube, produzido e dirigido por esta que vos escreve.

Um amigo costuma dizer que meu amor por esta banda se justifica pelo fator geracional. De fato, não posso descartar totalmente esta influência mas ela não é a única. Sei que é difícil de acreditar mas qualquer um que ame música genuinamente é capaz de ouvir um álbum dos BSB (qualquer um) e identificar pelo menos quatro elementos de muito boa música ali como harmonias de grupo vocal no maior estilo Boyz II Men, arranjos que lembram muito Babyface, melodias grudentas de bubblegum pop e todo o estilo dos Temptations. O primeiro álbum dos Backstreet Boys, que leva o nome do grupo, tem tudo isso e mais um pouco: o romantismo adolescente que todas nós precisamos nessa etapa da vida (quer a gente admita ou não). Mesmo que, em um primeiro momento seja possível dizer que eu fui capturada pela moda, foram os elementos citados acima que (1) mantiveram meu amor pelo grupo por 16 anos (2) aguçaram minha curiosidade e acenderam meu amor pela música (especialmente música negra norte-americana, em um primeiro momento).

A discussão entre mercado de música versus a arte de se fazer música, grupos e artistas fabricados, indústria cultural e toda essa baboseira de autenticidade é uma discussão pra lá de velha. Todo esse discurso ultrapassado, limitado e gasto sobre Boy Bands (“eles fazem playback, eles são escolhidos através de testes, eles não tocam instrumentos”) eu ouço desde que me entendo por gente. Essas mesmas pessoas tem espasmos toda vez que eu digo que os Beatles eram uma Boy Band sob muitos aspectos e que a Motown era uma grande fábrica de hits. Veja bem, eu amo a Motown (nem tanto os Beatles) e realmente não vejo mal nenhum em se fazer música para vender pois acredito que se alguém compra, o faz porque aquela música-produto se presta a algum propósito (seja qual for). Mas essa discussão além de antiga é complexa e não é este o objetivo aqui (por enquanto).

Vamos aos fatos, ou melhor, às faixas: o álbum começa com We’ve Got it Goin’ On, um hip-hop nervoso com um naipe de metais emulado digitalmente. Até hoje não ficou claro pra mim de onde vem este som e vasculhando a música que era feita na mesma época não consigo achar nada parecido. A letra varia entre o indecifrável e o inexpressivo: “Jam on ’cause Backstreet’s got it / Come on now everybody / We’ve got it goin’ on for years“. É claramente uma música para dançar e não pensar em mais nada mas saca só a fina ironia do refrão que diz “nós somos o Backstreet, nós somos demais e vamos ficar nisso muito tempo”. Acho que eles estão querendo nos dizer alguma coisa…

Get Down segue a mesma linha (hip hop contagiante, letra indecifrável mas envolvente e um rap no meio) com a vantagem de que essa começa mandando “you’re the one for me, you’re my extasy, you’re the one I need“. Quem resiste? Já as baladas I’ll Never Break Your Heart e Quit Playin’ Games With My Heart (essa última uma das baladas mais irresistíveis que já ouvi) foram hits, venderam que nem água e tocaram no rádio e na MTV até todo mundo ficar de saco cheio (inclusive eu). Mas as músicas que eu acho realmente incríveis e que fazem este álbum valer a pena nunca tocaram no rádio (Típico, né?!). Just to Be Close to You é simplesmente a balada dos Jacksons Five que o grupo nunca gravou. De fato, Nick Carter, na época com 13 anos(!), estava para os BSB assim como o pequeno Michael estava para o grupo preferido de Diana Ross (guardadas as devidas proporções, claro!) e eis o motivo pelo qual os Backstreet Boys nunca foram uma simples Boy Band: os caras cantavam. Quem duvida, eu desafio a procurar uma performance à capella dessa música (ou de qualquer outra do grupo) no youtube. Volte aqui depois pra conversarmos.

Para completar, Everytime I Close My Eyes só reforça as reais raízes do grupo: o R&B e os grupos vocais estilo Boyz II Men e The Stylistics. A verdade é que os BSB são uma versão branca, ultra processada, destes grupos. A voz de A.J. não está ali à toa – de olhos fechados você ouve esse vibrato e essa voz rouca e jura que o cara é negro. Tudo bem, tem umas coisas super descartáveis como Boys Will Be Boys, Nobody But You e Roll With It mas mesmo nessas a gente sente um gostinho de funk (o americano, não o carioca), hip-hop e soul.

Você pode dizer que as letras são simplistas, pobres até, mas era assim que a gente se sentia. “Eu nunca vou partir seu coração” ou “Pare de brincar com meu coração” (ou, na verdade, qualquer coisa envolvendo corações, partidos ou inteiros) eram frases que mexiam com a gente. Era tudo muito simples mesmo. O amor era simples. Não sei por que, quando a gente cresce, começa a complicar tanto a coisas. Lembra que os Jacksons Five diziam que era tão simples quanto ABC e 123?

Backstreet Boys, o álbum, não é, nem de longe, o meu preferido do grupo, mas é representativo do quanto o grupo foi e é injustiçado. Já no primeiro trabalho os caras traziam referências e talento dos quais poucos artistas da época passavam perto. Uma pena também que eles não tenham se mantido firmes em suas influências e se tornariam cada vez mais dance e pop (e venderiam mais em consequência disso). Mas há males que vem para o bem e os Backstreet Boys ainda teriam vários hits no topo das paradas, fariam muitas turnês e tocariam para multidões cada vez maiores (e depois menores) ao longo de seus 17 anos de existência. Ah, eu não mencionei? A banda ainda está na ativa! Quantas Boy Bands você conhece que tenham durado tanto?

Backstreet Boys – Backstreet Boys. 1996. Zomba Records, EUA. 

New Year’s Day

Ano novo, vida nova. Será mesmo? Nunca entendi muito bem a obsessão que as pessoas tem com ciclos e ritos de passagem. Ano Novo, de longe, sempre foi dos rituais mais sem sentido pra mim. O que faz as pessoas pensarem que a simples mudança no calendário faz com que, de uma hora pra outra, tudo vai melhorar e elas finalmente serão quem elas sempre quiseram ser, terão o que elas sempre quiseram ter mas nunca se esforçaram para isso?

Muita gente encara o ano novo como uma espécie de atualização do windows: basta um clique e esperar por algumas horas (ou, no caso, usar branco. Sem esquecer a calcinha vermelha, claro). Porém, de uns tempos pra cá, comecei a perceber que a gente precisa mesmo de uma renovação de tempos em tempos, a sensação de ter finalizado uma etapa, a esperança do recomeço.

Confesso que, mesmo lutando contra, nunca consegui evitar totalmente o sentimento de renovação automática do ano novo mas esse ano resolvi fazer diferente. Hoje, dia 1º de janeiro de 2012, eu decidi. Hoje eu acordei e pedi inspiração, pedi caminhos abertos, pedi luz,luz,luz pra que eu pudesse fazer coisas diferentes pra me transformar.

Pela primeira vez na vida fiz uma lista de resoluções de ano novo mas para fazer isso direito decidi seguir algumas dicas básicas como as que se encontram nesse texto e nesse gráfico (ambos em inglês). Descobri que, para isso funcionar, é preciso primeiro tentar enxergar sua vida a longo prazo (por exemplo, daqui a dez anos) e traçar suas metas a partir daí. Mas não é só isso: o truque é quebrar essas metas em metas menores, mais objetivas e atingíveis. Então, aproveitando essa data auspiciosa, resolvi fazer dieta, parar de beber, ler um livro por semana e… ouvir um bom disco por dia!

Esta ideia (antiga, demorou pra sair do papel) vem de uma vontade/necessidade de descobrir e fazer algo novo todo dia. Música é o que me move e frequentemente sintetiza pensamentos que eu jamais conseguiria pôr em palavras de maneira eloquente. Então este blog tem a ver, de uma maneira geral, com o objetivo de compartilhar ideias, sentimentos e sensações através da música.

Para começar, resolvi fazer uma seleção de 10 músicas com “New Year” no título. Pareceu idiota no início mas acho que essa lista acabou sintetizando um pouco o espírito da coisa: todas carregam, de uma maneira ou de outra, a ideia de renovação ou falam da expectativa da mudança. Algumas subscrevem a essa ideia, como a otimista Regina Spektor, outras a negam totalmente (“So this is the new year and I have no resolutions. For self assigned penance, for problems with easy solutions” como diz a banda Death Cab for Cutie). Mas nessa lista também tem espaço para festejar: Começa com Happy New Year do ABBA seguida de Bringing in a Brand New Year, do B B King, para aqueles que ainda estão em clima de festa.

Há também aquelas músicas para quem considera esta época apropriada para renovar as esperanças no amor como What Are You Doin’ New Year’s Eve, de Ella Fitzgerald mas que eu incluí na versão da Diana Krall ou ainda ultra-romântica-pra-dançar-de-rostinho-colado Let’s Start The New Year Right, do Bing Crosby. Mas, pra mim, é do Otis Redding a melhor música dessa lista. “All I wanna do is finish what we started, baby. Call it a new year’s resolution”, ele diz. Além de ser uma das canções de soul mais incríveis, Otis Redding ainda fornece o elemento essencial para as resoluções de ano novo darem certo: “Let’s make promises that we can keep”!

A verdade é que nada disso quer dizer muita coisa se não houver esforço e determinação. “Nothing changes on new year’s day”, já diria Bono Vox. Quer dizer, as coisas não mudam sozinhas, mas a música pode ajudar fornecendo inspiração e ânimo para a mudança, além de algumas ideias. Pelo menos comigo costuma funcionar.


Track list:
Happy New Year – ABBA
Bringing in a Brand New Year – BB King
New Year’s Prayer – Jeff Buckley
New Year’s Day – U2
Next Year – Foo Fighters
The New Year – Death Cab for Cutie
My Dear Acquaintance (Happy New Year) – Regina Spektor
Let’s Start The New Year Right – Bing Crosby
What Are You Doing New Year’s Eve? – Diana Krall
New Year’s Resolution – Otis Redding