“Escondam seus iPods, pois vem aí aquela banda que não quer que vocês baixem música da internet”. A frase é atribuída a Bruce Dickinson, vocalista da banda de heavy metal Iron Maiden, se referindo ao Metallica, que tocaria em seguida em um festival. Reza a lenda que esse comentário foi o início de uma rixa entre eles que faz com que, hoje em dia, seja impossível ter as duas bandas no mesmo festival. A questão que deu origem ao comentário de Dickinson é que o Metallica foi a primeira banda que teve cojones para processar o Napster, serviço pioneiro em compartilhamento de arquivos pela internet, em 2000. Não é como se eles fossem os únicos a querer fazer isso (mesmo por que a ação envolvia outros artistas também) mas a atitude da banda liderada pelo gostoso por James Hetfield foi o pontapé inicial de uma partida cujo segundo tempo começa agora.
Quem são os donos da bola?
O lance mais recente deste jogo dramático e que promete atiçar os ânimos das torcidas de ambos os times é o projeto de lei anti pirataria que está em discussão e será votado este ano no senado norte-americano. A Stop Online Piracy Act (ou SOPA, como ficou conhecida) propõe novas regras para combater a pirataria online, mas suas medidas restritivas e autoritárias – como conferir plenos poderes para que o governo norte-americano tire do ar qualquer site contendo conteúdo protegido por direitos autorais, mesmo sem ordem judicial – têm sido o principal alvo de críticas. Mesmo assim, entre as empresas que apoiam a lei estão (claro) gravadoras, emissoras de TV, grupos de mídia, editoras, operadoras de cartão de crédito, além de associações que representam diversos setores, como artistas, compositores, atores e estúdios de cinema.
Felizmente, nem todas as grandes corporações apoiam a lei e algumas gigantes da internet prometem desligar seus servidores em protesto, entre elas Google, Facebook e Amazon. Empresas e empreendedores – como Sergey Brin (Google), Arianna Huffington (Huffington Post), Jack Dorsey (Twitter), entre outros – fundaram a NetCoalition, grupo cujo objetivo é combater a proposta de lei. Em novembro de 2011, a organização divulgou um documento que aponta os riscos à liberdade dos usuários na internet, caso a lei seja aprovada.
A resistência não para por aí. Recentemente diversos artistas, entre eles Will I Am, Kanye West, Snoop Dogg e Alicia Keys, gravaram um video em “defesa” do Megaupload, um dos maiores serviços de compartilhamento de arquivos atualmente. O serviço havia sido apontado pela Recording Industry Association of America (RIAA) e pela Motion Picture Association of America (MPAA) como um apoiador e incentivador da pirataria. A iniciativa dos artistas irritou a gravadora Universal, que tentou tirar o vídeo do ar, sem sucesso (veja o vídeo abaixo).
Mas a atitude serviu para mostrar que os artistas estão começando a pensar diferente e já entenderam que é preciso lidar com a questão do download de outra maneira. Na verdade, apesar da facilidade em se conseguir música nos dias de hoje, os números tem se mantido relativamente positivos e melhorado em diversos aspectos. De acordo com dados publicados pelo Nielsen SoundScan (empresa responsável pelo levantamento de vendas de música nos Estados Unidos e Canadá), as vendas de música em formato digital subiram 8,4% desde 2010 e em 2011 o setor superou o suporte físico pela primeira vez na história, representando 50,3% do mercado mundial.
Os prognósticos são positivos, apesar de tudo. Pena que a indústria sempre dá um jeitinho de dar um tiro no pé, como no caso do box lançado por Elvis Costello no final do ano passado. “The Spectacular Spinning Songbook” traz o registro em CD, DVD e vinil da turnê de mesmo nome do músico britânico e sua banda The Imposters, além de tour book, lembracinhas y otras cositas más. Nas palavras do próprio, em comunidado divulgado em seu site oficial com o título “Steal this record” (roube este álbum), “este compêndio belamente projetado (…) registra os Imposters em sua melhor forma”. Mesmo assim, Costello prossegue dizendo que não se sente confortável em recomendar o produto a seus fãs pois o preço do box (inacreditáveis 250 dólares na Amazon) “parece ser um erro de impressão ou uma piada” e “infelizmente nossas tentativas de ter este valor revisto foram infrutíferas”. E não para por aí: Elvis termina o comunicado dizendo que, para aqueles que quiserem muito adquirir o kit, os itens estariam disponíveis no início deste ano separadamente por um preço mais em conta. “Isso se você já não tiver adquirido por meios não convencionais”, diz. A declaração causou rebuliço entre os fãs e na mídia especializada e aqueceu a discussão sobre indústria fonográfica e download.
Não é à toa que Elvis Costello também é bastante associado à cena punk do final dos anos 70, quando iniciou sua carreira. – Inclusive, em um de seus maiores sucessos, “Radio Radio”, ele afirma que a mídia de massa “está na mão de um bando de idiotas”. Mas não vá pensando que Elvis está dando uma de anarquista e muito menos que ele é a favor do download. Muito pelo contrário. Em um adendo posterior ao texto supracitado, Costello se refere a pessoas que fazem download ilegal como “piratas que se acham evangelizadores ou que os direitos dos outros absolve sua ladroagem”.
Acredito que não há nada de errado em um artista ser contra o download ilegal, da mesma forma que como não há nada de errado em ser a favor. É compreensível que músicos se sintam atingidos (financeira e moralmente) ao ver sua obra sendo distribuída a torto e a direito sem que obtenham a devida compensação por isso. O problema está no modo como a indústria de discos tem levado a situação: primeiro demorou a agir; depois tentou solucionar o problema através da repressão o que, obviamente, não deu certo; quando resolveu acordar e foram criados serviços como a iTunes Store e o Spotify, já era meio tarde. Uma vez que uma geração inteira cresceu tendo acesso à música de graça (e eu me incluo nessa) sem ser confrontados com os aspectos morais e éticos disso, fica difícil acabar com a prática de uma hora para a outra. E é por isso que projetos de lei como o que está em discussão no congresso norte-americano e ideias estapafúrdias como a Lei Azeredo (quem lembra?) só tendem a dar murro em ponta de faca.
Comofas/: Possíveis caminhos para indústria fonográfica.
Gente de visão como Kanye West e cia e o próprio Elvis Costello sabem que não é assim que a banda toca (e se alguém entende de como a banda toca, são eles, certo?). Eles sabem que, mesmo que o mercado fonográfico esteja em crise e mesmo que os artistas precisem ser pagos por seu trabalho, a indústria está fazendo isso errado.
Ok, mas qual é o jeito certo? Bom, vejamos, quantas formas diferentes de se lucrar com música existem hoje? Quantas são exploradas em todo seu potencial? Lembra quando surgiu o Guitar Hero? Era uma guerra para conseguir a liberação de uma música para o game e hoje bandas se esbofeteiam para estar nele. E esta é só uma das formas recentes de se ouvir música e trabalhá-la comercialmente.
O que tem ocorrido também é a ascensão da indústria do espetáculo, principalmente no Brasil. Hoje em dia, uma verdadeira gincana se inicia sempre que os ingressos para um show começam a ser vendidos, seja Paul McCartney, seja Ivete Sangalo. Ingressos esgotados em questão de minutos mesmo custando 2 ou 3 vezes mais caro do que em países desenvolvidos, alguns no valor de um salário mínimo ou mais (caso da turnê 360º do U2, por exemplo). Como explicar isso em um país em que cada vez se paga menos pela música em suporte físico? Sinal de que as pessoas ainda se importam o suficiente com a música para querer pagar (caro) por ela: A forma com que elas querem consumi-la é que mudou.
Dentre as diversas soluções possíveis (e seria impossível abordar todas em um único post) a que mais tenho defendido é uma espécie de brand loyalty na música, ou seja, investir naquelas pessoas leais ao artista ou banda a ponto de adquirir tudo relacionado a ele (não importa o valor, não importa se é um vinil raro ou um CDzinho fajuto), que divulgam seu artista preferido, o defendem e fazem de tudo para apoiá-lo. Estou falando dos fãs. Em um momento em que a maioria das pessoas não paga pela música que ouve não parece óbvio investir em quem paga o preço que for para ter um produto na estante?
Agora, também não estou falando somente dos fãs de determinado artista ou banda e sim dos fãs de música, os colecionadores, aqueles que utilizam a música como capital cultural, como botton de identidade em sua estante, aqueles que não dispensam um bom produto principalmente se tiver as palavras “raro” ou “edição de colecionador” escritas em letras garrafais e amigáveis (Assim, tipo eu…). Geralmente este cara é que vai dizer aos amigos o que adquirir, quais discos merecem ser ouvidos (o que em marketing chama-se trendsetter) e, o mais importante, eles frequentemente tem uma paixão pelo suporte e dificilmente vão se contentar com um mp3 de 128kps. Este tipo de consumidor é fiel (se agradado) e pode ser a salvação da indústria de discos. Mas não se engane, eles também são exigentes (demais até!) e para conquistá-los é preciso ter um produto de qualidade.
Pague pelo que importa.
Recentemente comecei a perceber a presença em lojas de discos (sim, eu frequento lojas de discos!) de um produtinho que estão chamando de Digipack. O produto consiste em (sem brincadeira) um pedaço de papelão com um CD dentro e uma etiqueta na frente dizendo “Pague pelo que importa: a música”. Juro que tive um ataque quando vi isso a primeira vez. Quer dizer que antes eu estava pagando pelo quê? Isso, comparado com a ganancia da Hip-O (e de outras gravadoras também) ao superfaturar o box edição limitada do Elvis Costello, por exemplo, só prova que os executivos desta indústria, de fato, acham que somos idiotas. Será que é difícil perceber que se você tiver um produto de qualidade as pessoas vão querer comprá-lo? E será que para baixar o preço do CD você precisa mesmo diminuir os custos de produção? Que tal diminuir um pouco o seu lucro em vez disso e lucrar em outros setores? E que tal tornar seu produto atraente (em vez de piorá-lo)?
Algo que vai diretamente de encontro a esta ideia estúpida de que hoje a música vale menos é o fato de que, apesar de todas as opções gratuitas ou mais baratas, pasmem, muita gente voltou a comprar discos, inclusive em vinil, um formato que, segundo dizem, está “voltando”. No Reino Unido, as vendas de discos de vinil tiveram alta pelo quarto ano consecutivo e em 2011 subiram 55% em relação ao ano anterior. Nos Estados Unidos os números são parecidos. Já no Brasil, a Polysom, única fábrica de vinis da América Latina, foi reaberta, e desde o ano passado já prensa alguns filhotes. Como explicar fenômenos como a possível volta do vinil em um momento em que se pode ter acesso a virtualmente qualquer coisa com um clique?
“Se é o som mais ‘aconchegante’, a arte da capa em tamanho grande ou seu apelo retrô, o fato é que o vinil parece estar capturando a imaginação dos consumidores, apesar de normalmente custar o dobro do CD contendo a mesma música”, afirma Kim Bayley, diretor da Entertainment Retailers Association (associação responsável pelas vendas de produtos de entretenimento no Reino Unido), em entrevista à Billboard. Bayley aponta, ainda, que “muito do foco da indústria da música tem sido a redução dos preços, em parte em resposta ao aumento da pirataria. O sucesso do vinil mostra que os fãs de música estão dispostos a pagar por algo que realmente amem.”
O fato é que dificilmente as pessoas vão simplesmente se conscientizar de que não devem baixar e muito menos parar com o download só por causa disso. É preciso oferecer algo a mais. O consumidor de música está, claramente, em busca de algo que a indústria ainda não tem. O download e o baque que a indústria fonográfica sofreu nos últimos anos são apenas um reflexo disso. Claro que alguns acreditam que todo mundo que faz download ilegal deve ser preso e acreditam que, com a nova lei anti pirataria, isso pode ser possível. Bom, pode até ser, mas se isso acontecer mesmo, meu amigo, não fica um consumidor de música pra contar a história, mais ou menos como naquela música do Bezerra da Silva. Tudo o que posso dizer pra essas pessoas é boa sorte com isso.
Com informações de: Estadão, Folha, Rolling Stone e Billboard.







